Os TPC’s – a tarefa para as crianças com tantas teorias dos adultos

Trabalhos para casa, devoirs, homework… várias línguas o mesmo conceito.

“Trabalho para Cábulas”, “Trabalho para Camelos”, “Tortura para Crianças”, “Trabalhos para Carecas”… ou “trabalho p’ra chatear”- Estas são algumas das definições dos famosos TPC’s e que não deixam de ter a sua importância pois denunciam a forma como os protagonistas desta história (crianças e adolescentes) o sentem, ou se sentem em relação a este processo. Para eles é monótono, difícil, sem sentido ou interesse. Os TPC’s acabam por ter o papel de ladrões de tempo – tiram-lhes o tempo para brincarem, para estarem, para poderem ser o que eles querem ser nas poucas horas que ainda restam de um dia.

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Na verdade, os TPC’s são os deveres que os professores estabelecem para as crianças fazerem em casa depois das aulas podendo assumir a forma que o professor lhes quiser dar – cópias, leitura, fichas, cálculos… fichas com problemas… os miúdos, por seu lado, limitam-se a copiar algo idêntico que já foi feito, fazem-no sem vontade ou sob a forma de autómato: m+a ma… para muitas, ou para a maior parte das crianças, os TPC’s consistem em pegar na mochila (que de repente tem o triplo do peso) e que vem a rastejar pelo chão… abri-la, tirar as coisas de dentro e colocar em cima de uma mesa… abrir o livro ou o caderno, tirar o lápis e a borracha e, num último suspiro porque o ato de magia não se deu e esta é a pura realidade, sem pensar, começar a fazer o exercício imposto. Neste ato de iniciar os trabalhos de casa a criança entra num momento de puro aborrecimento, frustração, cansaço… descodifica os aspectos negativos da escola, aquilo que se impõe depois de um dia inteiro passado na escola, como se de um castigo se tratasse.

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Há quem defenda que o grande objectivo dos TPC’s é serem “tarefas extra aula, em que os professores curriculares decidem o que querem que a criança realize depois das aulas e o grande objetivo destes é proporcionar oportunidades de aprendizagem, fora da escola”,  outros defendem que os TPC’s são uma forma de colocar a família a par das matérias da criança… alguns  pais, por seu lado, dizem que os TPC’s são para serem feitos no ATL porque em casa é um aborrecimento mas o facto de não haver a dita tarefa diária também os incomoda …  e há pais que gostam de chegar a casa e tomar conta das aprendizagens dos filhos. Mas se para um pai ou mãe essa é a hora de lazer, para a criança é continuação de mais do mesmo, uma vez que, o dia dela foi passado na… escola!!! Os TPC’s na gestão familiar podem ter dois papeis: facilitadores da ligação familiar ou geradores de tensões e conflitos. É um assunto delicado e que deve de ser bem gerido. Por outro lado há pais que têm tendência para fazer os trabalhos dos filhos… para lhes ditar as resposta com o intuito de facilitar. Este é o perigo e onde tudo acontece… “os TPC’s são dos alunos, são eles que os têm que fazer. Os pais são um apoio e não mais do que isso”; “As crianças devem de fazer a maior parte dos TPC’s sozinhos, sem ajuda” estes são alguns dos conselhos da psicóloga Dulce Gonçalves que diz ainda que “é muito importante os pais darem feedback à escola. Se as crianças ficam duas ou três horas depois do jantar a fazer os TPC’s, têm que passar essa informação e mostrar que para eles é uma situação completamente descabida.” Os TPC’s nem devem de ser corrigidos. É uma tarefa ditada pelo professor e os alunos respondem ao professor, não respondem ao pai/mãe, não respondem ao monitor, ao explicador. Este é um acordo entre dois papeis sociais (professor/aluno) logo a correcção é a eles que pertence e a justificação do não o ter feito também.

Os trabalhos de casa aparecem como uma actividade que faz parte do quotidiano, como se tratasse de higiene, alimentação… não se questiona porquê, fazem-se todos os dias porque se não se fizerem a professora “ralha” ou “marca falta” (quando somos mais velhos) em ciclos mais avançados. Portanto, o trabalho de casa para além de naturalizado está enraizado nas nossas cabeças, atitudes e comportamentos. Segundo vários pedagogos, pediatras e psicólogos não é pelo facto de os alunos levarem trabalhos para casa que vão ter melhores resultados na escola. Isso é um mito. A qualidade no estudo não tem nada a ver com quantidade, tem a ver com a predisposição dos alunos em relação a uma tarefa e, essencialmente, a forma como o aluno aprendeu a lidar com as suas responsabilidades ao longo dos anos escolares.

As ciências da Educação têm tentado estudar este tipo de trabalho escolar e os comportamentos das crianças em relação ao mesmo mas as questões ficam sem respostas e há poucos professores a actuarem de forma diferenciada. Por seu lado as crianças e adolescentes vão reagindo à sua realidade, ao dia a dia – Distraem-se nas salas de aula, nas salas de ATL, olham para o lado, fazem desenhos nos cantos das folhas, dizem que estão cansadas, experimentam os pais, desafiam o professor com desculpas esfarrapadas… enfim, procuram, de forma sábia, responder a um trabalho imposto depois de um dia de aulas. O mais injusto nisto tudo é que os adultos passam a vida a queixar-se por causa do trabalho e poucos são aqueles que ao terminarem o trabalho de um dia enfiam na mala o TPC. A hora de sair do trabalho é sagrada… e ainda ter que chegar a casa e fazer as tarefas domesticas e cuidar dos filhos é realmente o desespero dos desesperos.  Mas os miúdos, esses têm que ir de mochila carregada de tarefas para quando saírem da sala de aula e chegarem a casa, ao ATL ou à sala de estudo continuarem as suas 8 horas de trabalho fazendo horas extraordinárias… e os fins de semana??? Toca de estudar e fazer trabalhos de casa que os fins de semana são só para os adultos, que já atingiram um estatuto social que lhes permite descansar e não pensar em trabalho. De facto, se o adulto não pode viver só de trabalho as crianças não crescem e não se desenvolvem só de escola.

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Continuamos a não conseguir evoluir. Os trabalhos de casa são uma visão conservadora da escola e da sociedade. Existem, criticam-se, os pais criam estratégias para não ter que passar por isso com os filhos, os malefícios são visíveis mas ninguém tem coragem de dizer: “Exma. Sra Professora o meu filho não faz os TPC’s…”. Como diz Bourdieu “é a crença e aceitação das regras do jogo a condição da sua perpetuação.” Em 2004 na Bélgica, a ministra da educação quis abolir os trabalhos de casa. No entanto, a oposição dos pais e de outros partidos políticos não permitiram que esta medida fosse para a frente. Assim, foram determinados tempos específicos para a duração dos TPC’s de acordo com as idades e anos de frequência. Noutros países da Europa também já existe regulamentação sobre os TPC’s mas só em alguns países – França, Luxemburgo, Grécia, Finlândia… e há casos em que os TPC’s foram mesmo proibidos. Em Portugal já temos o debate sobre este tema há alguns anos e é assim que vamos continuar.

Nos meus anos a trabalhar com a escola , famílias e alunos tenho-me questionado acerca do sucesso da escola. O bum de ATL’s, Salas de Estudo e outras instituições ligadas à escola não revelam outra coisa que não o fracasso da escola (instituição) e o cansaço das famílias. A escola exige algo que no fundo não funciona, as famílias continuam a acreditar no sucesso dos educandos baseado nas notas mas a não quererem assumir o papel que lhes compete e as salas de estudo estão cheias a abarrotar a tentar dar resposta e a fazer o papel da escola e das famílias. Mas também temos pais a trabalharem com os filhos até às 10 ou 11 da noite, a ensinarem a fazer contas, a copiar frases, ou a resolverem exercícios de gramática. E também temos crianças que o têm que fazer sozinhas porque os pais não sabem ajuda-las… temos de tudo, temos de tudo para justificar um TPC. Para Maria José Araujo “Neste sentido, compete aos educadores de opção progressista, que acreditam nas crianças e na infância, oporem-se à colonização do tempo das crianças pela lógica escolar. É preciso que as crianças tenham a possibilidade de ter um verdadeiro tempo livre, um tempo de brincar que não seja monopolizado pelos adultos. É preciso lutar pelo direito a brincar como algo fundamental e não supérfluo. Isto exige de nós capacidade para ouvir as crianças e olhar o mundo do seu ponto de vista, propondo medidas que possam minimizar, senão acabar, com esta exploração escolar que as impede de usufruir de tempo vital para o seu normal crescimento. O brincar é um comportamento que exige um conhecimento de si próprio, do mundo físico e social dos sistemas de comunicação, o que tem que levar a considerar a actividade lúdica como intimamente relacionada com o desenvolvimento da criança.”

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Segundo Bourdieu no seu discurso sobre Insucesso Escolar, “os alunos são transformados em culpados e assim únicos responsáveis pela sua desgraça. Na verdade, faz-se crer às vitimas de um sistema social diferente que não têm sucesso porque não se esforçam, porque são incultos, porque não aprendem. Esta forma de encontrar culpados, fazendo com que as pessoas que sofrem as desigualdades se sintam as únicas responsáveis pelo seu fracasso social, desculpabiliza o sistema e impede as suas vitimas de perceberem que a verdadeira culpa reside numa determinada ordem social, numa forma de organização especifica. A lógica da responsabilização individual dissimula as verdadeiras causas de insucesso.”

As crianças não são o produto dos pais, nem dos professores, nem da sociedade… são pessoas! São pequenos mas sentem em maior dimensão.

 

 

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Resumo: História dos Sistemas Educativos

Retirado de O Currículo Oculto

 

Andrew Ure (1778-1857), professor da Universidade de Glasgow e entusiasta da Revolução Industrial analisava

Pela deficiência da natureza humana, sucede que, quanto mais hábil o operário, mais determinado e intratável ele se torna, e, naturalmente, menos apto a ser um componente de um sistema mecânico.” (URE, 1835, p. 20)

Para Ure, a dificuldade residiria

“[…] no treinamento de seres humanos para que renunciem aos seus hábitos inconstantes de trabalho e identifiquem-se com a invariável regularidade do complexo autômato. […] Descobriu-se ser quase impossível converter pessoas que já passaram a puberdade, independentemente de serem oriundos de ocupações rurais ou artesanais, em mãos úteis para a fábrica” (URE, 1835, p. 15)

Na interpretação de Toffler, eram precisas crianças adaptadas a um

” […] trabalho repetitivo, portas adentro, a um mundo de fumo, barulho, máquinas, vida em ambientes superpovoados e disciplina colectiva, a um mundo em que o tempo, em vez de regulado pelo ciclo sol-lua, seria regido pelo apito da fábrica e pelo relógio.” (TOFFLER, 1970, p. 393)

O trabalho da fábrica exigia trabalhadores, especialmente operários da linha de montagem, que se apresentassem na hora, que aceitassem ordens da hierarquia de gerência, sem objeções, e dispostos a se escravizarem a máquinas ou a escritórios realizando operações brutalmente repetitivas. (TOFFLER, 1993, p. 42-43)

Mas o próprio sistema industrial resolveu seu problema.

A solução só podia ser um sistema educacional que, na sua própria estrutura, simulasse esse mundo novo.” (TOFFLER, 1970, p. 393).

Introduziram nos seus estabelecimentos escolas infantis, sob os cuidados de jovens do sexo feminino com hábitos de qualidade superior.” (URE, 1835, p. 423)

O mais extraordinário grau de atenção é dedicado à educação dos filhos dos trabalhadores, candidatos para admissão ao trabalho nas fábricas. A eles são ensinados leitura, escrita, com os elementos da geografia, música, dança, história natural, etc.” (URE, 1835, p. 390)

No entanto, vale a pena observar que

Este era o curriculum aberto. Mas por debaixo dele escondia-se um curriculum encoberto, invisível, que era muito mais básico. Consistia este – e consiste na maioria das nações industriais – em três cursos: um de pontualidade, um de obediência e um de trabalho maquinal repetitivo.” (TOFFLER, 1993, p. 42)

Nesses seminários asseguram-se que as crianças aprendem a ser obedientes e ordeiras e a restringirem as suas emoções.” (URE, 1835, p. 423)

Na verdade,

Para os futuros empregadores e para a sociedade que segrega a escola em geral, esse currículo oculto é que constitui, no fim de contas, o essencial.” (TOFFLER, 1993, p. 42)

Como resultado, compreensivelmente,

Os fiandeiros preferem sempre as crianças que tenham sido educadas numa escola infantil, uma vez que são mais obedientes e dóceis.” (URE, 1835, p. 423)

Antes da escola de massas, todos os alunos partilhavam o mesmo espaço mas  agrupavam-se em pequenos grupos em estações de trabalho, guiados por um monitor, sendo, por isso, conhecido por ensino monitorial. O monitor chamava cada aluno individualmente para ser ouvido ou para lhe explicar a matéria, enquanto que os restantes se ocupavam de outras tarefas de aprendizagemo. (FINO, 2008)

Ensino monitorial
Fonte: Paul Monroe, A Cyclopedia of Education, New York, Macmillan, 1913,

Posteriormente, os Irmãos das Escolas Cristãs, em França, formularam o chamado método da instrução simultânea, em que o mestre ensina a mesma matéria a todos os alunos ao mesmo tempo (FINO, 2008). Este sistema vem a ser o que ainda está em uso até hoje, um século depois.

Ensino Simultâneo
Fonte: Paul Monroe, A Cyclopedia of Education, New York, Macmillan, 1913,

 

Essa escola lembrava muito o ambiente de uma fábrica.

Tecelagem

A comparação é cruel:

“a ideia geral de reunir multidões de estudantes (matéria-prima) destinados a ser processados por professores (operários) numa escola central (fábrica), foi uma demonstração de génio industrial.” (TOFFLER, 1970, p. 393)

Infelizmente, a estrutura atual das nossas escolas ainda reflete esse modelo.

A desconexão entre a forma como os estudantes aprendem e a forma como os professores ensinam é fácil de compreender quando consideramos que o sistema escolar atual foi projetado para um mundo agrário e de manufatura.” (JUKES& DOSAJ, 2003)

Os nossos alunos são acostumados a assimilar informação picada em pequenos pedaços (disciplinas e capítulos e seções de livros-texto) e repetidos à exaustão nos exercícios de fim de capítulos, em total concordância com o princípio industrial da divisão do trabalho.

Tal como era alienante o trabalho repetitivo da indústria, também é alienante este ‘ensino’ à base de conteúdos, desfasado da realidade fora das paredes da escola, onde, aliás, o aluno passa a maior parte do seu tempo.

É difícil  acreditar em reformas educativas que mudam a grelha das disciplinas mas mantém a própria ideia industrial de disciplinas; que mudam os objetivos de ‘conteúdos’ para ‘competências e habilidades’ mas mantém a estrutura industrial de salas de aula, horários de entrada e saída e ensino obrigatoriamente presencial; que introduzem a tão incensada ‘educação â distância’ mas desperdiçam todo o arsenal tecnológico hoje disponível e a resumem ao envio de arquivos de texto para serem passivamente lidos pelos alunos.

Peter Drucker, embora não seja um educador, advertiu em 1997, lá no fim do século passado:

As Universidades não vão sobreviver. O futuro da educação está fora do campus tradicional, fora da sala de aula tradicional.

Ian Jukes,  compara o sistema escolar atual com uma baleia azul: é grande e pesada e demora muito para mudar de direção.

Em contraste, o mundo à volta da escola muda muito e muito rapidamente: o Muro de Berlin caiu, as Torres Gêmeas caíram, países surgem e desaparecem do mapa todos os anos, a celebridade de hoje é esquecida amanhã. O ritmo é acelerado. Enquanto os jovens nasceram com a mudança acelerada, que lhes parece natural, seus professores sonham com a volta da calmaria dos “bons velhos tempos”. Os professores exigem que seus alunos decorem informações desconexas, tais como nomes de rios e de capitais, que estes sabem que está disponível a qualquer instante pelo Google!

Jack Welch disse que

Quando a mudança no exterior ultrapassa a mudança no interior … o fim está a chegar!

Será que está a chegar o fim da escola como a conhecemos hoje?

Continuando a comparação de Ian Jukes, pesa tanto ou mais do que uma baleia azul. Mas um pequeno grupo de sardinhas  é suficiente para mudar a direção de todo o cardume quase instantaneamente.

Comece a mudança por si mesmo. Não vale a pena ficar à espera que a grande baleia azul mude de rumo – ela não vai mudar. Se quer mudar, seja uma sardinha comprometida.

E se acha que uma andorinha não faz verão, vale a pena lembrar a antropóloga Margaret Mead:

Nunca duvide de que um pequeno grupo de pessoas comprometidas pode mudar o mundo – na verdade, é a única coisa que alguma vez já o mudou.”



 

Sem imagem… só com revolta!

Ontem,  eram 7.30 da tarde (neste caso já noite) e estava eu encostada a um poste a tentar recompor-me do soco que levei no estomago e que me fez ficar muito mal disposta… nauseada mesmo. Não foi um soco de verdade, daqueles que alguém joga a mão dele contra nós num gesto de violência e ódio, não!  mas acho que preferia que fosse… talvez o tivesse levado por merecer… mas, de facto, este foi um soco na alma, no espírito, na consciência, nos sentidos da minha condições de pessoa, cidadã, mãe, educadora… sei lá.

Em conversa com uma professora, meninos para aqui, meninos para ali, leitura, aprendizagem, matemática… escola… eis que vem à conversa técnicas de ensinar a ler e métodos utilizados para tal. Eu aprendi a ler com o método das 28 palavras há mais de 30 anos e acho incrível como nenhum dos meus 3 filhos conseguiu passar por essa experiência em pleno século XXI. A professora em questão (que me tinha “desencantado” no início do ano com o facto de ir ensinar pelo b+a ba) começa por dizer que ensinar entre silabas e letras é uma questão de preferência… e ali fica, se perde, se encontra e se procura numa tentativa de se explicar a ela própria… sem animo, convicção ou qualquer tipo de entusiasmo, nem mesmo a tentativa de me tentar convencer do que para ela era melhor, enquanto professora. “Que estranho tanta falta de convicção! – pensava eu.

Sem que estivesse à espera, soltou-se-lhe um suspiro, a prisão da língua e da consciência, um abano de cabeça e um “honestamente, eu não gosto deste método. Há anos que não trabalhava com ele e jurei a mim própria que não lhe voltaria a pegar.” Arregalei os olhos e não queria acreditar que estava a ouvir estas palavras (!).

Mal sabia eu, que desse momento para a frente, o que ia era sentir dor, uma dor emocional tão forte que me deixaria nauseada, por fazer parte de uma sociedade, de um mundo, movidos pela economia e em que nós não percebemos, por mais que lutemos contra, que não somos nada, não contamos para nada,  somos apenas serventes do poder…

Como já disse, esta professora trabalha com o método das 28 palavras há muitos anos. Tem imensos materiais e tudo o que  conseguiu reunir ao longo dos anos para, com o entusiasmo que lhe vi nos olhos e nos movimentos do corpo, fazer os meninos ler de forma criativa, motivadora e com sentido. Ora, há uns anos, na escola onde trabalha, os professores do 1º ano resolveram avisar os pais para não comprarem os manuais de Português, porque este manual iria ser construído entre professores e alunos ao longo do ano e como tal, não haveria necessidade dessa despesa. ” Incrível!!!” – pensei.

Pergunto: Haverá coisa melhor para um aluno que entra na escola e o seu primeiro ano é a construção do próprio manual? Pois… para nós, que aqui andamos às voltas com a vida e com mais alguma coisa porque não queremos apenas o que nos enfiam pelos olhos dentro… a resposta a esta pergunta é obvia: “Não, não há nada mais criativo e emocionante para os miúdos do primeiro ano do que fazerem o próprio manual.” Mas infelizmente, para as editoras deste pais, aqueles que mandam na educação (tal como as farmacêuticas na saúde… e os patrões (grandes) no salário mínimo…) o facto de uma escola dizer aos pais para não comprarem um manual é motivo de um processo disciplinar para os professores… de idas a tribunal e de sarilhos dos grandes para quem quer continuar a ter uma profissão. Foi o que se passou numa escola do nosso país. Quando a editora descobriu que os professores diziam aos pais para não comprarem o manual de Português arregaçaram as mangas e não se comoveram nada ao avançarem com um processo disciplinar contra as mesmas.

No meio da conversa, incrédula, ainda pensei que: “Ok, os pais compram o manual e o trabalho é feito igualmente, mais manual menos manual, podemos sempre dar uso a um livro de leitura” e foi ai que levei o resto da tareia psicológica. “O outro problema…” – diz-me a professora, “é o facto deste ser um método que fica caro e não há verbas para isso nas escolas. O computador da sala avariou e não sabia quanto tempo a Camara Municipal iria demorar a dar-nos outro. Não há plafond para tinteiros o que também não é por ai, pois não me importava de pagar eu mas… Mas é um todo. As fotocópias no agrupamento estão contabilizadas. Há um orçamento para o ano e passamos o ano a tentar não o gastar porque sabemos que ele não chega ao fim. Nem para as fichas de avaliação de todos os alunos ao longo do ano chega. Eu por exemplo, como acho que os manuais de português têm pouco para trabalhar…  pedi a uma empresa para “patrocinar” a escola tirando as fotocópias necessárias para que os alunos possam trabalhar.”

No meio disto tudo, deparo-me com os olhos brilhantes da professora a falar do método das 28 palavras… do corpo dinâmico, do mexer de braços e na forma como gesticulava com as mãos… as palavras e o entusiasmo que lhe saiam pela boca a dizer como as crianças de 6 anos aprendem e como reagem à aprendizagem, de como todos são felizes dentro da sala a trabalhar, de como querem mais e descobrem as coisas sozinhos, da dinâmica, e da descoberta de cada um todos os dias. Esta, não era, definitivamente, a mesma pessoa que falava sem brilho de como as crianças dela estão a aprender.

Triste esta história… alguém que tenta fazer algo diferente e não pode porque forças superiores a impedem.

Este é o sistema educativo que temos.

 

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Carta de resposta à professora da minha filha

A Maria tem 6 anos e quis  ir para a escola como todos (ou quase todos) os meninos e meninas da sua idade.

Tem uma professora que, ao que perece, gosta daquilo que faz e acredita que a escola é o centro da vida de uma criança e que os pais não se podem esquecer disso.

A professora da Maria gosta de escrever cartas aos pais… o que acho ternurento, criativo, pois afinal, a carta desapareceu para dar lugar ao email. O que não gosto muito, honestamente, é do conteúdo da carta, cheio de recomendações para os pais que não cumprem os requisitos escolares e que têm que ser relembrados das suas tarefas enquanto pais e decisores do caminho que querem seguir.

Este fim de semana recebi a 2ª (em dois meses) da professora da Maria e, confesso, andei a pensar nela durante um bom par de muitas horas.

 

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Santo André, 7 de Dezembro de 2015

Cara Professora da Maria,

Obrigada pela sua dedicação enquanto professora da Maria e pelo seu empenho em chegar aos miúdos e aos pais.

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Gostaria de a lembrar que a Maria e os seus colegas têm 6 anos e nasceram no seculo XXI;

Lembrar que a Maria ainda não sabe ler e, deverá demorar um pouco mais, porque esse método do b+a ba e do d+a da já não faz muito sentido para crianças que iniciam a escola em 2015;

Lembrar que eu mostro interesse pelo que ela aprende… não fosse sempre a mesma coisa e feita da mesma forma… já vou na terceira a iniciar o primeiro ano e hoje igualzinho há 10 anos atrás, pior, há 20 e 30 anos atrás…;

Lembrar que os TPC’s são mandados fazer pela professora  logo, é um contrato entre a professora e o aluno. Caso a Maria não os faça é um problema que ela tem com a sra. não é comigo que tenho coisas bem mais interessantes para ensinar à minha filha;

Lembrar que ter os irmãos, o pai ou a mãe a ensiná-la não é muito positivo na resolução dos trabalhos de casa pois acabam por perceber que o “não sei”, “não consigo” facilitam o próprio trabalho… o mesmo já não digo para quando a criança chega com uma duvida a casa;

Lembrar que para além dos pais também a professora deve ensinar os meninos a tomarem conta do material. Já comprei não sei quantos lápis, afias, borrachas e nunca chega nada a casa… quanto a isso não tenho como me justificar.

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Uma vez que não me conhece e não sabe a minha história de vida ou da minha família (família da Maria), gostaria de lhe dizer quem sou, o que quero, no que acredito e para o que luto… nas reuniões de horas que há entre pais e professores, normalmente, só ficamos a conhecer o lado profissional da professora e uma pequena (muito pequena)  ideia de quem poderá ser a pessoa que está por trás da professora que fala sobre ensino-escola e escola-ensino e obrigações dos pais. Infelizmente, nunca há tempo para a professora conhecer os pais dos alunos que tem. Talvez isso não seja uma parte importante do ensino (que deveria ser aprendizagem e focado em cada um) , assim como assim, para a escola basta que os pais saibam o que a professora e a escola querem.  O professor apresenta-se, “conhece” os meninos que ali tem e os pais obedecem a 4 anos de obrigações escolares (para começar). Por vezes baralho-me um pouco com as obrigações fiscais… (pagamos porque temos que pagar e ninguém quer saber por aquilo que estamos a passar). A escola faz muito este papel. Julga, acusa, chama a atenção sem saber do verdadeiro contexto da criança e quais as condições para a aprendizagem.

De qualquer forma, aproveito esta ideia original de enviar cartas aos Encarregados de educação (titulo que agradeço não ser tratada, pela frieza e distancia que cria e porque eu sou mãe da Maria não sou encarregada da educação dela) para que nos comecemos a conhecer melhor.

“O vínculo mãe-filha está estrategicamente desenhado para ser uma das relações mais positivas, compreensivas e íntimas que teremos na vida.” e faço disto a minha máxima de vida (entre outras, é verdade).

Ora pois! Tenho 3 filhos, um de 15 anos, outro de 11 anos e a nossa Maria. Os 3 são diferentes,  ou não estivéssemos a falar de pessoas… mas há uma coisa que os identifica – a mãe.

Já cometi muitos erros na educação dos meus filhos (e muitos mais vou cometer porque sou humana e não sei nada  do que é isto de ser mãe) mas, talvez o maior e mais grave, foi ter uma péssima relação com o primeiro (em tempos atrás) por uma única situação – a escola! Foram muitos anos de discussões, castigos, psicólogas  e andar constantemente chateados porque ele, apesar de ser uma criança inteligente (como todas as crianças!!! porque somos todos diferentes e cada um tem algo que o outro não tem) a escola não o preenchia, não o encantava e ele não gostava de estudar. Cheguei a uma altura da nossa relação que percebi que ou Eu mudava, ou Eu evoluía, ou Eu procurava transformar-me ou o perdia. “O vinculo mãe – filho está estrategicamente desenhado para ser uma das relações mais positivas” e depende dos pais, não dos filhos. Definitivamente, agi de certa forma diferente com o segundo, que tem características diferentes, é um “artista nato”e que eu decidi que a falta de resultados na escola não vai anular a pessoa criativa, dinâmica, autentica e feliz que é.

Assim, estabeleci uma relação técnica com a escola enquanto eles lá quiserem estar (porque há alternativas!):

  • A família é mais importante do que a escola;
  • Brincar é tão importante como aprender porque a brincar também se aprende;
  • Depois de 8 horas de escola (9 – 17.30h.) ninguém merece chegar a casa com TPC’s em formato XXL e ter que os fazer quando naquele dia não lhe apetece, ou se quer ir jantar fora, ou lhes apetece apenas estar ali…;
  • Não me interessam as excelentes notas, porque para mim eles não são as notas que conseguem na escola, são pessoas e valorizo-os pela pessoa que são – isso sim, é primordial;
  • Não concordo com miúdos stressados com 6, 7, 8, 9 e 10 anos por causa da escola, dos trabalhos,dos testes e dos exames que têm para fazer, eles não vão aprender mais por isso, muito pelo contrário, vão-se frustrar, desorientar e ficar irritados para todo o sempre;
  • É muito importante trazermos a escola da vida para dentro da escola, mais importante, do que a escola para dentro da família;
  • os meus filhos não são uma produção minha, oriento-os no seu crescimento e desenvolvimento para que possam ser eles próprios;
  • Temos um sistema educativo obsoleto em que as crianças são ensinadas a copiar o que está nos livros em vez de se ensinar a recriar, a pensar e a aprender.

Desta forma, a escola lá em casa passou a ser livre… só vão à escola enquanto quiserem, porque existem alternativas à escola tradicional  que todos conhecem… não acredito na escola que temos, acredito na aprendizagem… na criatividade, na curiosidade, na diversidade de pessoas e talentos.

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 “O vínculo mãe-filha está estrategicamente desenhado para ser uma das relações mais positivas, compreensivas e íntimas que teremos na vida.”

Acredito, que desta forma, passo 24 horas por dia, 365 dias por ano a dar-lhes toda a atenção.

 Com os melhores cumprimentos,

Iolanda Gomes

Lançamento Ano Letivo 2015/2016 – alteração dos procedimentos para Ensino Doméstico

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Retirado do texto do LANÇAMENTO DO ANO LETIVO 2015/2016 do Ministério da Educação e Ciência.

VII – MODALIDADES DE ENSINO

Este capítulo apresenta as orientações relativas às modalidades de ensino doméstico e a distância, criadas para garantir o cumprimento da escolaridade obrigatória por parte de todas as crianças e jovens.

7.1 – Ensino Doméstico

As modalidades de ensino doméstico e a distância revestem-se de caráter excecional e visam responder a solicitações de famílias que, por razões de mobilidade profissional e outras de natureza estritamente pessoal, pretendem escolher os métodos de ensino mais apropriados para os seus educandos.

O ensino doméstico é lecionado, no domicílio do aluno, por um familiar ou por pessoa que com ele habite, sendo a responsabilidade pelo percurso formativo do aluno do respetivo encarregado de educação, ou do próprio quando maior.

O ensino individual é ministrado por um professor habilitado a um único aluno fora de um estabelecimento de ensino.

Os alunos abrangidos pelos ensinos doméstico e individual estão sujeitos à avaliação e à certificação das aprendizagens.

Procedimentos a ter em conta relativamente a esta modalidade de ensino:

 O encarregado de educação do aluno, ou o aluno, quando maior, deverá requerer o ensino doméstico ou individual, através de um pedido, devidamente fundamentado, e entregue na UO onde o aluno se encontra matriculado;

A UO de matrícula do aluno e o encarregado de educação deverão celebrar um protocolo de colaboração em que constem as responsabilidades de todas as partes, no que diz respeito ao acompanhamento e avaliação das aprendizagens do aluno;

O encarregado de educação deverá organizar um dossiê do aluno, o qual deve conter elementos que possam ser considerados pertinentes ou que facilitem no acompanhamento do desenvolvimento das aprendizagens do aluno e da sua avaliação, considerando o seu desenvolvimento global e educativo;

 O aluno, se frequentar o ensino básico, terá obrigatoriamente de realizar, na qualidade de autoproposto, as provas finais de ciclo de Português e Matemática, como provas de equivalência à frequência, efetuando também uma prova oral na disciplina de Português e as provas de equivalência à frequência requeridas para as restantes disciplinas, com exceção da Educação Física tal como estabelecido no Regulamento das provas finais e exames nacionais

dos ensinos básico e secundário, publicado anualmente e no Despacho normativo n.º 13/2014, de 15 de setembro;

 No caso do ensino secundário, o aluno terá de realizar os exames finais nacionais, bem como as provas de equivalência à frequência, conforme os casos, tal como estabelecido no Regulamento das provas finais e exames nacionais dos ensinos básico e secundário, publicado anualmente e na Portaria n.º 243/2012, de 10 de agosto, na sua redação atual.

Os aspetos mais importantes relativos ao ensino doméstico, designadamente no que diz respeito a escolaridade obrigatória, matrícula e avaliação, estão contemplados nos normativos seguintes:

Normativos anuais sobre a calendarização de provas finais de ciclo e exames nacionais e regulamento de exames;

Portaria n.º 243/2012, de 10 de agosto, na sua redação atual, que estabelece o regime de organização, funcionamento e avaliação dos cursos científico-humanísticos de nível secundário de educação. É neste normativo que é garantida a possibilidade de validação dos resultados dos alunos do ensino doméstico e individual, através de provas de equivalência à frequência ou de exames nacionais, conforme os casos (n.º 2 e alínea a) do n.º 3 do artigo 11.º, e no n.º 3 do artigo 13.º);

Despacho normativo n.º 13/2014, de 15 de setembro, que estabelece as regras de avaliação do ensino básico. É neste normativo que é garantida a possibilidade de validação dos resultados dos alunos do ensino doméstico e individual, através de provas de equivalência à frequência ou de provas finais de ciclo, conforme os casos (n.º 1 e n.º 2 do artigo 2.º, n.º 1 e alínea b) do n.º 3 do artigo 9.º, n.º 5 e n.º 6 do artigo 10.º);

Decreto-Lei n.º 176/2012, de 2 de agosto, que visa adaptar gradualmente o regime legal existente ao alargamento da escolaridade obrigatória, definindo as medidas necessárias para o seu cumprimento efetivo, estabelecendo no n.º 3 do artigo 6.º que: “— O dever de proceder à matrícula aplica -se também ao ensino doméstico e ao ensino a distância, sem prejuízo do estabelecido nos respetivos diplomas legais.”

7.2 – Ensino a Distância

O ensino a distância é uma modalidade de oferta educativa e formativa, complementar das outras ofertas curriculares existentes nos 2.º e 3.º CEB e Ensino Secundário, que foi criada e regulamentada pela Portaria n.º 85/2014, de 15 de abril. A sua sede atual é na Escola Secundária de Fonseca Benevides, Lisboa.

Com recurso a uma plataforma tecnológica de apoio à aprendizagem, esta oferta educativa tem como objetivo oferecer condições equitativas de acesso ao currículo e ao sucesso educativo a crianças e jovens que, por diferentes motivos, se encontram em situações, de caráter temporário ou permanente, que as impedem de frequentar regularmente uma escola e, por consequência, sujeitas a descontinuidade na sua aprendizagem, o que conduz ao insucesso e ao abandono escolares antes da conclusão da escolaridade obrigatória.

Os destinatários são os alunos a partir do 2.º CEB até ao Ensino Secundário que não encontram no ensino presencial resposta adequada às características da mobilidade familiar e profissional dos seus encarregados de educação ou outras resultantes de situações pessoais de natureza temporária, nomeadamente:

 Alunos filhos de profissionais itinerantes dos 2.º e 3.º CEB e do Ensino Secundário que estão sujeitos a condições especiais de frequência escolar, dada a constante mobilidade das famílias;

 Alunos que não concluíram a escolaridade obrigatória, que se encontram integrados em IPSS, e que estabeleçam com a escola sede do Ensino a Distância protocolos, visando assegurar o cumprimento daquela;

 Alunos matriculados que, por razões de saúde ou outras consideradas relevantes, se encontram impedidos de frequentar uma escola em regime presencial, durante e até ao limite do ano letivo que frequentam, obtido parecer favorável da DGE e, no caso de curso profissional, da ANQEP.

Para grandes males maiores remédios! Comunidades de Aprendizagem

Comunidades de Aprendizagem (que a partir daqui designo por CA) são formadas por grupos de pessoas que se encontram motivadas por objetivos e interesses idênticos e que se organizam de forma presencial numa perspectiva colaborativa, construindo ambientes de aprendizagem focados em 3 princípios base: Partilha de experiências e conhecimentos, diálogo igualitário e respeito. O fim destes princípios é a construção de uma sociedade verdadeira e inclusiva. Trabalha-se com orientação dos pontos fortes de cada um, respeitando uma variedade de perspectivas e promoção de oportunidades de aprendizagem com vista à criação de um ambiente positivo, sinergético e ao reforço do individuo, abrindo caminho para novas e diversas possibilidades de aquisição de conhecimentos.

Para Benson, a CA é um grupo de pessoas que se apoiam na sua aprendizagem, coletiva e individual. São cooperantes e podem trabalhar produtivamente juntos. No plano Individual há motivação e esforçam-se para fazer um trabalho de qualidade. Uma vez que os membros sabem que vão ser apoiados a assumir riscos, eles desafiam-se a si mesmos e vêem os erros como experiências que vão fazer das tentativas posteriores acontecimentos de sucesso e aprendizagem.

As CA podem incluir todos o níveis de alunos, desde os mais pequenos aos maiores, isto porque se trata de uma aprendizagem e não de uma competição e qualquer um pode ajudar ou ser ajudado por outro. Numa verdadeira CA tanto os alunos aprendem como aprendem os professores (às vezes tanto ou mais que os alunos!). Aqui, o processo de aprendizagem deve de ser orientado no sentido da construção de competências e é, essencial, que se desenvolvam práticas pedagógicas que  sustentem a colaboração e a interacção entre todos os intervenientes.

Alguns autores defendem que as CA são projetos de transformação que abrangem a escola e o seu contexto.
Elboj, Puigdellívol, Soler, & Valls afirmam que “Uma Comunidade de Aprendizagem é um projeto de transformação social e cultural de um centro educativo e do seu contexto para conseguir uma sociedade de informação para todas as pessoas, baseada na aprendizagem dialógica mediante a educação participativa da comunidade que se baseia em todos os seus princípios, incluindo a escola”.

E o que é isto de Aprendizagem Dialógica?

aprendizagem dialogica

A aprendizagem dialógica  acontece nos diálogos que são igualitários em interacções em que se reconhece a inteligência cultural de todas as pessoas e que está orientada para a transformação do grau inicial de conhecimento e do contexto sociocultural, como meio de alcançar o êxito. A Aprendizagem Dialógica acontece nas interacções que aumentam a aprendizagem instrumental, ou seja, aprendizagem do que é fundamental para viver em comunidade, favorecendo a criação do sentido pessoal e social. São guiadas pelo sentimento de solidariedade em que a igualdade e diferença são valores compatíveis e mutuamente enriquecedores.

Voltando às CA, Yus destaca os princípios ecológicos e humanistas que estão na base da actuação da CA.

Indica 4 pressupostos básicos:

– responsabilidade dos estudantes pela própria aprendizagem;

– desenvolvimento de experiências de aprendizagem que vão ao encontro das necessidades e interesses dos estudantes;

– o comportamento ativo dos estudantes na aprendizagem de vários grupos e contextos;

– a noção de que todo o processo resulta numa aprendizagem real e que é: compreendida, aplicada, demonstrada e interiorizada!!!!

Que mais poderemos nós querer?!?!

ughy

Quais os Princípios de construção de uma CA?

para Elboj, Puigdellívol, Soler, & Valls uma verdadeira CA deve obedecer a este 6 pontos orientadores:

1 –  As CA como projecto de transformação social e cultural.

Este principio consagra o desafio à efectivação de uma transformação aos níveis social e cultural que vai alterar profundamente os hábitos familiares, educativos e sociais procurando incutir nos intervenientes no processo uma mentalidade de partilha de responsabilidades e de poderes de decisão.

b) As CA como projectos de escola.

Os projectos de construção de CA são concebidos, essencialmente, ao encontro das necessidades sentidas nas escolas mais afectadas por problemas de desigualdades, pobreza e outras carências. A partir de um plano inclusivo que compreenda práticas educativas assentes nos conceitos de igualdade e colaboração é possível, segundo os autores, “romper as dinâmicas negativas” muitas vezes associadas a escolas carenciadas, tornando possível alcançar o almejado sucesso educativo.

c) As CA como projectos do meio.

A filosofia inerente às CA extravasa o espaço físico da escola incentivando o desenvolvimento de relações interactivas entre esta e a comunidade. Os autores defendem que a aprendizagem resulta da correlação entre as vivências escolares, familiares e sociais e defendem o meio como um fundamental agente educativo a ter em conta na delineação das estratégias educativas.

d) As CA têm como objectivo proporcionar a integração de todas as pessoas na sociedade da informação.

Este preceito tem como objectivo fundamental proporcionar os meios necessários para que seja possível a inclusão de todos na sociedade da informação. Os autores propõem que, através da auto-organização, as CA adaptem as estratégias aos contextos específicos nos quais se desenvolvem facilitando o acesso a todas as pessoas, do “máximo de possibilidades culturais e educativas, de modo que os resultados educativos sejam iguais ou superiores aos de aqueles que estão em situações económicas, sociais, etc, melhores ou diferentes” (Elboj, Puigdellívol, Soler, & Valls, 2002, p. 75).

e) As CA baseiam-se na aprendizagem dialógica. O conceito de aprendizagem dialógica constitui o princípio regulador das CA, o verdadeiro núcleo em torno do qual se desenvolvem todas as estratégias e metodologias. Este conceito alicerça-se nas noções de igualdade, consenso e reflexão, proporcionando interacções produtivas entre os diversos intervenientes no processo educativo.

f) As CA desenvolvem-se mediante uma educação participativa da comunidade que se concretiza em todos os espaços incluindo a sala de aula.

De acordo com Elboj, Puigdellívol, Soler, & Valls  esta proposição final refere-se ao instrumento de mudança mais específico das CA dado que se encontra intimamente relacionado com o seu objectivo fundamental de melhorar a aprendizagem de todos os alunos. Trata-se de converter o espaço de aprendizagem, tradicionalmente confinado aos limites físicos da sala de aula, num espaço no qual todas as pessoas podem ensinar e aprender. Esta noção pressupõe a participação de alunos, professores, familiares e de toda a comunidade em geral no processo educativo proporcionando uma educação de todos para todos.

Para terminar, falta falar das Orientações Pedagógicas das CA.

Defendem-se quatro vertentes como elementos pedagógicos fundamentais:

– Participação

de toda a comunidade no processo educativo. Apenas se pode atingir a qualidade se se contar com a participação de toda a comunidade, numa lógica de otimização de recursos.

– Centralidade da Aprendizagem

desenvolvendo estratégias inovadoras que envolvam todos os agentes educativos. Os alunos devem de estar o máximo de tempo possível em atividades formativas, sendo por isso, necessário coordenar os recursos existentes e formar grupos de aprendizagem heterogéneos.

– Expectativas positivas

traçar sempre objetivos máximos que estimulem e desafiem os alunos a alcançar o êxito. Como tal, torna-se fundamental ressalvar o sucesso, fomentar a auto-estima, o controlo pessoal do processo educativo e de ajuda para melhorar a cooperação.

– Progresso Permanente

A necessidade de avaliação contante do processo de construção da CA tem como objetivo analisar o que foi feito e onde se pode melhorar. Deve de ser feita uma análise/avaliação pedagógica e não sancionatória que realce os aspectos positivos resultantes das transformações já conseguidas e que indique rumos produtivos a seguir no futuro.

Perante tudo isto, fico  convicta que esta seria uma ótima alternativa para a educação das nossas crianças. Futuros adultos conscientes, responsáveis, cooperantes, solidários e altruístas e com uma capacidade de aprendizagem e partilha de conhecimentos ainda não vista, na construção de uma sociedade verdadeira e inclusiva.

Para grandes males (a escola que temos) maiores remédios (o crescimento de Comunidades de Aprendizagem por este Portugal fora)!!!

Baseado num trabalho sobre Comunidades de Aprendizagem de Hermengarda Catela entre outras fontes de pesquisa.

Educação Consciente

Educação Consciente é o reconhecimento do potencial do educador enquanto mãe, pai, professor…
É um caminho com dois momentos:
Um primeiro, onde há a investigação de si próprio, dos seus medos, angustias, competências… e um segundo momento, que é construído na relação com o mundo e com a criança.
De tudo isto, resulta um desenvolvimento pessoal, num aprimoramento que promove novos tipos de relação adulto – criança, relações de natureza mais humana e mais consciente da contribuição desta relação para cada um que se move nesta esfera de relações e que se repercute no desenvolvimento e crescimento integral da criança e da sua família.
Educação Consciente é ter a certeza que nada é permanente e que a única coisa que é intemporal é o sentimento que cresce quando desenvolvemos os laços com os nossos filhos e ou alunos.

Por isso mesmo, procuram-se:
Pais conscientes!!!
Professores conscientes!!!

É importante atingir um estádio de confiança sobre:
O que se faz,
Como se faz,
Porque se faz.

Educar para valores, para a diversidade, para a paz… educar com a consciência que a forma como nos relacionamos e educamos, principalmente, enquanto espelhos e modelos das nossas crianças irá fazer toda a diferença.